sexta-feira, 22 de julho de 2016
Um poema por semana (30)
ESTRADA DE FOGO
Pedra a pedra a estrada antiga
sobe a colina, passa diante
de musgosos muros e desce
para nenhum sopé;
encurva, na abstracta encruzilhada;
apaga-se, na realidade. Morre
como o rastilho de fogo,
que de campo em campo aberto
seguia, e ao bater na mágica cancela
dobrava a chama, para uma respiração,
e deixava o caminho do portal
incólume e iniciado.
sexta-feira, 15 de julho de 2016
Um poema por semana (29)
Não Desafies
Não desafies
a alegria.
Quando ela chegue
um instante só
não lhe perguntes
porquê?
Estende as mãos ávidas
para o calor
da cinza fria.
João José Cochofel, in 'Breve'
a alegria.
Quando ela chegue
um instante só
não lhe perguntes
porquê?
Estende as mãos ávidas
para o calor
da cinza fria.
João José Cochofel, in 'Breve'
sábado, 9 de julho de 2016
Um poema por semana (28)
Com Palavras
Com palavras me ergo em cada dia!
Com palavras lavo, nas manhãs, o rosto
e saio para a rua.
Com palavras - inaudíveis - grito
para rasgar os risos que nos cercam.
Ah!, de palavras estamos todos cheios.
Possuímos arquivos, sabemo-las de cor
em quatro ou cinco línguas.
Tomamo-las à noite em comprimidos
para dormir o cansaço.
As palavras embrulham-se na língua.
As mais puras transformam-se, violáceas,
roxas de silêncio. De que servem
asfixiadas em saliva, prisioneiras?
Possuímos, das palavras, as mais belas;
as que seivam o amor, a liberdade...
Engulo-as perguntando-me se um dia
as poderei navegar; se alguma vez
dilatarei o pulmão que as encerra.
Atravessa-nos um rio de palavras:
Com elas eu me deito, me levanto,
e faltam-me palavras para contar...
Egito Gonçalves, in 'Antologia Poética'
Com palavras lavo, nas manhãs, o rosto
e saio para a rua.
Com palavras - inaudíveis - grito
para rasgar os risos que nos cercam.
Ah!, de palavras estamos todos cheios.
Possuímos arquivos, sabemo-las de cor
em quatro ou cinco línguas.
Tomamo-las à noite em comprimidos
para dormir o cansaço.
As palavras embrulham-se na língua.
As mais puras transformam-se, violáceas,
roxas de silêncio. De que servem
asfixiadas em saliva, prisioneiras?
Possuímos, das palavras, as mais belas;
as que seivam o amor, a liberdade...
Engulo-as perguntando-me se um dia
as poderei navegar; se alguma vez
dilatarei o pulmão que as encerra.
Atravessa-nos um rio de palavras:
Com elas eu me deito, me levanto,
e faltam-me palavras para contar...
Egito Gonçalves, in 'Antologia Poética'
sexta-feira, 1 de julho de 2016
Um poema por semana (27)
A Rosa
Tu, flor de Vénus,
Corada Rosa,
Leda, fragrante,
Pura, mimosa,
Tu, que envergonhas
As outras flores,
Tens menos graça
Que os meus amores.
Tanto ao diurno
Sol coruscante
Cede a nocturna
Lua inconstante,
Quanto a Marília
Té na pureza
Tu, que és o mimo
Da Natureza.
O buliçoso,
Cândido Amor
Pôs-lhe nas faces
Mais viva cor;
Tu tens agudos
Cruéis espinhos,
Ela suaves
Brandos carinhos;
Tu não percebes
Ternos desejos,
Em vão Favónio
Te dá mil beijos.
Marília bela
Sente, respira,
Meus doces versos
Ouve, e suspira.
A mãe das flores,
A Primavera,
Fica vaidosa
Quando te gera;
Porém Marília
No mago riso
Traz as delícias
Do Paraíso.
Amor que diga
Qual é mais bela,
Qual é mais pura,
Se tu, ou ela;
Que diga Vénus...
Ela aí vem...
Ai! Enganei-me,
Que é o meu bem.
Bocage, in 'A Rosa (Cançoneta Anacreôntica)'
Corada Rosa,
Leda, fragrante,
Pura, mimosa,
Tu, que envergonhas
As outras flores,
Tens menos graça
Que os meus amores.
Tanto ao diurno
Sol coruscante
Cede a nocturna
Lua inconstante,
Quanto a Marília
Té na pureza
Tu, que és o mimo
Da Natureza.
O buliçoso,
Cândido Amor
Pôs-lhe nas faces
Mais viva cor;
Tu tens agudos
Cruéis espinhos,
Ela suaves
Brandos carinhos;
Tu não percebes
Ternos desejos,
Em vão Favónio
Te dá mil beijos.
Marília bela
Sente, respira,
Meus doces versos
Ouve, e suspira.
A mãe das flores,
A Primavera,
Fica vaidosa
Quando te gera;
Porém Marília
No mago riso
Traz as delícias
Do Paraíso.
Amor que diga
Qual é mais bela,
Qual é mais pura,
Se tu, ou ela;
Que diga Vénus...
Ela aí vem...
Ai! Enganei-me,
Que é o meu bem.
Bocage, in 'A Rosa (Cançoneta Anacreôntica)'
sexta-feira, 24 de junho de 2016
Um poema por semana (26)
.............
vejo agora que a ciência
arnaldo saraiva / singela balada da procura da amada
vejo agora que a ciência
mau grado a sua importância
só prolongou o silêncio
só alargou a distância
que isola a nossa existência
nesta altura da viagem
onde a virtude: esperar
onde esperar: a coragem
mas se viva ainda estás
que por mim jamais te vi
só te imagino a imagem
manda notícias por mar
terra ou ar que tanto faz
ou mesmo por telstar
decerto que em cabo kennedy
ou qualquer outro lugar
captarão tua mensagem
breve: telestou aqui
se não basta um balão sonda
um simples tele-sinal
uma micro micro-onda
do neutro silêncio astral
que a tua voz me responda
mesmo que da lua ou marte
mesmo que sem dizer donde
que diga NÃO HÁ MORTE
ainda que a morte ronde
arnaldo saraiva / singela balada da procura da amada
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