sexta-feira, 16 de dezembro de 2016

Um poema por semana (51)

Não te quero senão porque te quero

Não te quero senão porque te quero
E de querer-te a não querer-te chego
E de esperar-te quando não te espero
Passa meu coração do frio ao fogo.
Te quero só porque a ti te quero,
Te odeio sem fim, e odiando-te rogo,
E a medida de meu amor viageiro
É não ver-te e amar-te como um cego.
Talvez consumirá a luz de janeiro
Seu raio cruel, meu coração inteiro,
Roubando-me a chave do sossego.
Nesta história só eu morro
E morrerei de amor porque te quero,
Porque te quero, amor, a sangue e a fogo.

Pablo Neruda

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Gageiro (5)


domingo, 11 de dezembro de 2016

Um poema por semana (50)

BASTASTE TU
Bastou aquele gesto
Da tua mão tocar tão docemente a minha
Pra nascerem raízes...

Que me prendem à terra e me alimentam
Nas horas mais vazias

Bastou aquele olhar
- O teu olhar tão brando, prolongando-se um pouco sobre o meu –
Para iluminar as noites em que a lua se esconde
E a escuridão envolve um mundo sem sentido.

Bastou esse teu jeito de sorrir,
Um sorriso em que vejo despontar a confiança
Na vida não vivida, nas emoções ainda não sentidas,
Nos passos que ressoam noutros passos

Bastaste tu.

Maria Eugénia Cunhal

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Arquictetura rural

FURDA (Idanha-a-Nova)
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CHAFURDÃO (Castelo Vide)

quinta-feira, 1 de dezembro de 2016

Um poema por semana (49)

Vaidade, Tudo Vaidade!

Vaidade, Tudo Vaidade!Vaidade, meu amor, tudo vaidade!
Ouve: quando eu, um dia, for alguém,
Tuas amigas ter-te-ão amizade,
(Se isso é amizade) mais do que, hoje, têm.

Vaidade é o luxo, a gloria, a caridade,
Tudo vaidade! E, se pensares bem,
Verás, perdoa-me esta crueldade,
Que é uma vaidade o amor de tua mãe...

Vaidade! Um dia, foi-se-me a Fortuna
E eu vi-me só no mar com minha escuna,
E ninguém me valeu na tempestade!

Hoje, já voltam com seu ar composto,
Mas eu, vê lá! eu volto-lhes o rosto...
E isto em mim não será uma vaidade?


(António Nobre)

Gageiro (4)


O Jolie, em pose de modelo!!!!


domingo, 27 de novembro de 2016

Um poema por semana (48)

AS VEZES

Às vezes eu queria ser extravagante
  para dizer eu te amo loucamente.
  Às vezes eu queria ser bobo
  a gritar: Eu amo-te tanto!

Às vezes eu queria ser uma criança
  para lamentar enrolado em teu ventre.

Às vezes eu queria estar morto
  sentir,
  sob a terra molhada dos meus sucos,
  ver crescer uma flor
  quebrar o meu peito,
  uma flor e dizer:
  Esta flor para ti.


(Nicolás Guillén, em Havana)




 

Não são precisas mais palavras!


sábado, 19 de novembro de 2016

Um poema por semana (47)

 O CHORO DE ÁFRICA
 
O choro durante séculos
nos seus olhos traidores pela servidão dos homens
no desejo alimentado entre ambições de lufadas românticas
nos batuques choro de África
nos sorrisos choro de África
nos sarcasmos no trabalho choro de África
 
Sempre o choro mesmo na vossa alegria imortal
meu irmão Nguxi e amigo Mussunda
no círculo das violências
mesmo na magia poderosa da terra
e da vida jorrante das fontes e de toda a parte e de todas as almas
e das hemorragias dos ritmos das feridas de África
 
e mesmo na morte do sangue ao contato com o chão
mesmo no florir aromatizado da floresta
mesmo na folha
no fruto
na agilidade da zebra
na secura do deserto
na harmonia das correntes ou no sossego dos lagos
mesmo na beleza do trabalho construtivo dos homens
 
o choro de séculos
inventado na servidão
em historias de dramas negros almas brancas preguiças
e espíritos infantis de África
as mentiras choros verdadeiros nas suas bocas
 
o choro de séculos
onde a verdade violentada se estiola no circulo de ferro
da desonesta forca
sacrificadora dos corpos cadaverizados
inimiga da vida
 
fechada em estreitos cérebros de maquinas de contar
na violência
na violência
na violência
 
O choro de África e' um sintoma
 
Nos temos em nossas mãos outras vidas e alegrias
desmentidas nos lamentos falsos de suas bocas - por nós!
E amor
e os olhos secos.
 
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