sexta-feira, 4 de março de 2016

Um poema por semana (10)


Os Teus Olhos

 

Direi verde

 do verde dos teus olhos

 

 de um rugoso mais verde

 e mais sedento

 

 Daquele não só íntimo

 ou só verde

 

 daquele mais macio    mais ave

 ou vento

 

 Direi vácuo

           volume

 direi vidro

 

 Direi dos olhos verdes

 os teus olhos

 e do verde dos teus olhos direi vício

 

 Voragem mais veloz

 mais verde

             ou vinco

 voragem mais crispada

 ou precipício

 

Maria Teresa Horta, in 'Candelabro'
 
 

No próximo domingo, 95 anos, muita história!

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2016

Um poema por semana (9)


SONETO IMPERFEITO
Já não há mordaças, nem ameaças, nem algemas
que possam perturbar a nossa caminhada, em que os
poetas são os próprios versos dos poemas e onde
cada poema é uma bandeira desfraldada.
Ninguém fala em parar ou regressar. Ninguém
teme as mordaças ou algemas. – O braço que
bater há-de cansar e os poetas são os próprios
versos dos poemas.
Versos brandos… Ninguém mos peça agora.
Eu já não me pertenço: Sou da hora.
E não há mordaças, nem ameaças, nem algemas
que possam perturbar a nossa caminhada, onde
cada poema é uma bandeira desfraldada e os
poetas são os próprios versos dos poemas.
 
 

A fama da VERMELHA vai longe....


quarta-feira, 17 de fevereiro de 2016

Um poema por semana (8)

"PARAÍSO"          

Deixa ficar comigo a madrugada,
para que a luz do Sol me não constranja.
Numa taça de sombra estilhaçada,
deita sumo de lua e de laranja.

Arranja uma pianola, um disco, um posto,
onde eu ouça o estertor de uma gaivota...
Crepite, em derredor, o mar de Agosto...
E o outro cheiro, o teu, à minha volta!

Depois, podes partir. Só te aconselho
que acendas, para tudo ser perfeito,
à cabeceira a luz do teu joelho,
entre os lençóis o lume do teu peito...

Podes partir. De nada mais preciso
para a minha ilusão do Paraíso.


                     David Mourão-Ferreira

Até nos mais pequenos pormenores o AZAR me persegue!


terça-feira, 9 de fevereiro de 2016

Um poema por semana (7)

“Porque os outros se mascaram mas tu não
Porque os outros usam a virtude
Para comprar o que não tem perdão.


Porque os outros têm medo mas tu não

Porque os outros são os túmulos caiados
Onde germina calada a podridão.


Porque os outros se calam mas tu não.

Porque os outros se compram e se vendem
E os seus gestos dão sempre dividendo.


 Porque os outros são hábeis mas tu não.

Porque os outros vão à sombra dos abrigos
E tu vais de mãos dadas com os perigos.


 Porque os outros calculam mas tu não.”


Sophia de Mello Breyner Andresen

Falam muito mas fazem pouco.

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2016

Um poema por semana (6)

O Teu Riso

Tira-me o pão, se quiseres,
tira-me o ar, mas
não me tires o teu riso.

Não me tires a rosa,
a flor de espiga que desfias,
a água que de súbito
jorra na tua alegria,
a repentina onda
de prata que em ti nasce.

A minha luta é dura e regresso
por vezes com os olhos
cansados de terem visto
a terra que não muda,
mas quando o teu riso entra
sobe ao céu à minha procura
e abre-me todas
as portas da vida.

Meu amor, na hora
mais obscura desfia
o teu riso, e se de súbito
vires que o meu sangue mancha
as pedras da rua,
ri, porque o teu riso será para as minhas mãos
como uma espada fresca.

Perto do mar no outono,
o teu riso deve erguer
a sua cascata de espuma,
e na primavera, amor,
quero o teu riso como
a flor que eu esperava,
a flor azul, a rosa
da minha pátria sonora.

Ri-te da noite,
do dia, da lua,
ri-te das ruas
curvas da ilha,
ri-te deste rapaz
desajeitado que te ama,
mas quando abro
os olhos e os fecho,
quando os meus passos se forem,
quando os meus passos voltarem,
nega-me o pão, o ar,
a luz, a primavera,
mas o teu riso nunca
porque sem ele morreria.

Pablo Neruda, in "Poemas de Amor de Pablo Neruda

 

A propósito da volta da Medicina Interna...

... para o Hospital de Torres Novas: HÁ QUEM SE PONHA EM BICOS DE PÉS